…Informação para Refletir e Crescer…

Arquivo para abril, 2013

Ele é o rei da casa. Advinha quem são os súditos?

Talvez a maior dificuldade na educação de crianças e adolescentes seja o estabelecimento de limites. Nesse contexto, alguns pais vivenciam os dissabores diante das restrições, muitas vezes acreditando que ao frustrar seus filhos estão fracassando enquanto pais, ou mesmo acreditando que dizer “sim” pode evitar sofrimento diante dos limites do mundo. Ambientes com excesso de facilidades e escassez de exigências comumente são contextos que favorecem o surgimento de comportamentos de difícil manejo que se agravam com o decorrer do tempo, podendo levar ao desenvolvimento de transtornos comportamentais.
Decerto que cuidar é uma tarefa prazerosa. Porém, também se torna árdua quando os responsáveis precisam lidar com certos eventos, como os gritos, o choro, a desobediência, a oposição e a resistência infantil. Todos esses comportamentos são previstos quando se estabelece regras e limites. Embora as crianças tenham vivenciado suas limitações físicas diante de um novo comportamento (como andar), as primeiras experiências de frustrações nas relações sociais são singulares. Sua importância se dá pelo fato de proporcionar o contato com algo inevitável: as regras sociais e os limites nas relações interpessoais. Aproximar-se desse contexto é fundamental e, quanto antes isso ocorrer, mais adaptativo será o comportamento social.
No entanto, lidar com a resistência infantil por vezes é tão aversivo que os pais agem de forma a evitar a birra e o choro. Assim, facilitam atividades diárias, são permissivos (ou como dizem “deixam à vontade”), diminuem ou extinguem as exigências, concedem o que a criança pede (mesmo o desejo não sendo permitido ou desejável), cedem a birras (trocam o “não” pelo “sim”), entre outros.
Cabe destacar que os jovens de hoje estão inseridos em uma cultura onde tudo é acessível: a informação está por todos os lados, o contato com a tecnologia diminui os esforços físicos e cognitivos, a sociedade em que estão inseridos valoriza e favorece o consumo e os bens acabam se tornando descartáveis, dispensando a necessidade de conservação. Ao passo disso, os cuidadores vivenciam a rotina de trabalho excessiva, que favorece o distanciamento físico e afetivo deles em relação aos filhos. Trata-se de um contexto bem diferente das gerações anteriores, que pregavam o esforço e o merecimento, pré-requisitos para que objetivos e a sobrevivência pudessem ser atingidos.
Alguns pais – movidos pela culpa diante da ausência no cotidiano dos filhos – realizam concessões que podem prejudicar a aprendizagem de regras culturais e morais importantes. Há quem acredite que dizer “não” é prejudicial por impor sofrimento à criança e que permitir é proporcionar a felicidade e a adequação social. Porém, em relacionamentos paternos em que prevalecem concessões excessivas (sem critérios e sem limites), os papeis são invertidos: quem dita a ordem é a criança, e o pai é quem obedece.
Assim, a criança vive um reinado em que tudo é possível, bastando pedir, sinalizar um desejo discretamente ou mesmo impondo sua vontade. Os pais acabam se submetendo à sua vontade, seja “visando a sua felicidade” ou mesmo para evitar o sofrimento das crianças diante das limitações vitais. Eles se transformam em súditos também para evitarem a própria sensação de fracasso em não poderem realizar o desejo do filho. Eis então que paira um questionamento: se não é possível uma vida sem frustrações, como prepará-los para o mundo se os pais buscam proporcioná-los apenas êxitos?
Ao contrário do que se pensa, frustração não é algo de adulto ou de perdedor. Caso os pais não estabeleçam limites quando necessário, a tolerância à frustração infantil não será desenvolvida adequadamente, de modo que a criança terá dificuldades em aceitar as restrições que a própria vida impõe, apresentando respostas emocionais e comportamentos desadaptativos. Além disso, é possível que o infante sofra rejeições sociais, pois nas brincadeiras em grupo não apresentará “espírito esportivo”: será o responsável pelas regras do jogo, competindo e desejando apenas vitórias. Quando estas não forem possíveis, a criança poderá agir de forma agressiva ou mesmo apresentando trapaças para evitar fracassos. Ao contrário do que podem pensar os pais, estabelecer limites não é ser cruel ou proporcionar infelicidade. Na verdade, as crianças ficam até mais felizes e seguros ao saberem do que se espera deles e de quais caminhos precisam trilhar para obterem êxitos.
Embora haja aqui uma ênfase no estabelecimento de limites, de forma alguma há a recomendação de severidade nos cuidados. Os extremos são igualmente nocivos ao desenvolvimento infanto-juvenil. A ausência de regras e limites favorece o surgimento de padrões comportamentais desafiadores e opositores, falhas no desenvolvimento pessoal e social, além de desenvolver comportamentos antissociais (delinquência juvenil, psicopatias e sociopatias) e aditivos (uso de drogas). Ao passo disso, padrões autoritários já são responsáveis por outros prejuízos, como níveis significativos de ansiedade, humor deprimido, baixa autoestima e estresse. O ideal seria o estabelecimento de regras e limites juntamente com o afeto, de modo equilibrado. Vejamos.
Antes de tudo, a família deve entrar em um consenso quanto aos limites a serem ensinados. Estes se referem ao que é permitido e o que não pode ser feito, quais as regras que regem aquela família e quais valores devem ser cultivados. Nesse delineamento, é importante que sejam consideradas a cultura, as peculiaridades daquela família e a idade dos filhos. Quando os pais conseguem estabelecer acordo quanto aos limites é mais fácil de haver consistência e, consequentemente, aprendizagem dos filhos.
O próximo passo é apresentá-los à criança/ adolescente, por meio de uma conversa, descrevendo claramente as consequências caso haja descumprimento das regras. É válido não só descrever os limites, mas lembrá-los periodicamente para que possam ser mantidos. O uso de uma linguagem adequada, clara e concisa se faz necessário para assegurar compreensão e aumentar a probabilidade de obediência.
Após o “acordo”, é necessário que os pais ajam com consistência e firmeza. Se a regra foi estabelecida e não é possível modificá-la, é importante não hesitar diante da resistência infantil. Os filhos conseguem identificar quando uma regra pode ser quebrada, testam os limites dos pais diante de suas resistências. Identificando que um “não” pode se transformar em “sim”, e tendo a hipótese comprovada, se torna mais provável que haja resistências no seguimento de regras na próxima oportunidade. Se isso ocorrer de forma crônica, a regra perde o seu efeito e quem as dita em casa é a criança, ao invés dos pais. Cabe ressaltar que as regras também podem ser modificadas, conforme a avaliação da família. Se uma regra não está sendo cumprida, algo não ficou bem estabelecido: ou ela é inadequada àquele momento ou a criança não entendeu, necessitando de revisão.
As consequências diante do respeito aos limites estabelecidos e do descumprimento também são dignas de discussão. Ao mesmo tempo em que as consequências precisam ser adequadamente apresentadas diante de regras burladas, o cumprimento das mesmas devem ser seguidas de consequências positivas, seja com elogios, atenção ou uma recompensa. Estas medidas simples tem resultado mais efetivo e menos danoso que as punições diante do comportamento inadequado.
Além disso, cabe ressaltar que os pais também devem fornecer o modelo em seguir regras. É incoerente cobrar obediência a elas se os pais burlam normas familiares ou sociais, desejando que apenas o comportamento verbal seja seguido pelos filhos ao invés daquele que emite (o observável). Verbal ou motor, o comportamento é emitido pelo mesmo modelo, fator que denota a relevância de ambos para a aprendizagem.
Na orientação clínica diante de limites, é comum que os pais retruquem que é fácil falar sobre isso, mas que é difícil fazê-lo. Muitos já tentaram, mas diante das dificuldades, desistiram. Percebe-se uma série de padrões comportamentais dos pais que interferem no estabelecimento de limites, como a intolerância à frustração, o déficit no repertório de habilidades sociais (sobretudo quanto a negar pedidos), e crenças desadaptativas que associam amor a superproteção e liberdade à permissividade. Cabe a cada pai avaliar seu repertório e, diante das dificuldades, procurar ajuda profissional. Muito provavelmente esses padrões aparecem não só no relacionamento com os filhos, mas em outros âmbitos, o que torna a psicoterapia válida pois abrangerá não só um âmbito da vida (paternidade/maternidade), mas a vários (relacionamento conjugal e profissional, por exemplo).
E retomando ao título do texto, o interessante é que não haja castelos, reis e súditos. O que a criança precisa é de um lar como ele é: com segurança, mas também vulnerabilidades. Que haja proteção, mas não em demasia. Ela precisa de pais, não de reis invulneráveis e absolutos (e tampouco ditadores). A liberdade é desejável, mas as restrições são necessárias. A criança necessita, sobretudo, que os pais mostrem as regras do jogo chamado “vida”: viver é lutar, gozar de ganhos, mas também é lidar e aceitar as perdas e limitações.
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Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC e Psicóloga do Centro Integrado de Educação Especial – CIES e da Clínica Lecy Portela, em Teresina-PI. Tem experiências acadêmicas (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas” do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR) e profissionais na área clínica (atendimento a criança, adolescente e adulto), jurídica e educação especial, na orientação de pais.
Fonte: Instituto de Psicologia Aplicada – InPA
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Você sabe ouvir?

 

TORNE-SE UM OUVINTE MELHOR

Cresci acreditando que era um bom ouvinte. E embora tenha me tornado um ouvinte melhor nos últimos dez anos, tenho que admitir que sou, ainda e apenas, um ouvinte adequado.

Ouvir efetivamente é mais do que simplesmente evitar o péssimo hábito de interromper os outros enquanto falam, ou terminar as frases por eles. É se sentir feliz ao ouvir plenamente o pensamento de outrem, em vez de aguardar, impaciente, sua oportunidade de responder.

De certa maneira, a maneira como falhamos como ouvinte revela muito sobre como vivemos. Frequentemente tratamos a comunicação como se estivéssemos numa corrida. É como se nosso objetivo fosse não permitir qualquer intervalo entre a conclusão da frase da pessoa com quem estamos falando e o início de nossa frase. Minha mulher e eu estávamos, recentemente, num café, almoçando, de ouvidos sintonizados nas conversas à nossa volta.Parecia que ninguém estava realmente prestando atenção ao que os outros falavam; o que eles faziam era alterar períodos em que um não escutava o que o outro dizia. Perguntei a minha mulher se eu costumava fazer o mesmo. Com um sorriso nos lábios ela declarou: “ Só de vez em quando. “

Diminuir seu ritmo de resposta e tornar-se um ouvinte mais aplicado o ajudará a se tornar uma pessoa mais pacífica. Alivia a pressão. Se você pensar a respeito, verificará que dispendemos uma quantidade de energia desmesurada e muito estresse quando ficamos na ponta da cadeira, tentando adivinhar o que a pessoa à nossa frente ( ou ao telefone ) dirá, para que sejamos os mais ágeis na resposta. Mas, quando você espera que a pessoa com quem está se comunicando acabe, ou simplesmente ouve mais atentamente o que está sendo dito, perceberá que a pressão sobre você se alivia. Você imediatamente se sente mais relaxado, e as pessoas com quem está falando, também. Sentem-se seguros diminuindo o ritmo de suas próprias respostas porque sentem que com você não há competição pela pausa de respiração! Tornar-se um ouvinte melhor, não só faz de você uma pessoa mais paciente, como também melhora a qualidade de suas relações. Todo mundo adora conversar com alguém que realmente ouve o que se está dizendo .

Livro : Não Faça Tempestade em Copo D`Água – Pág – 91

 

 

Você entrega críticas em caixinhas de veludo ao seu amor?!

 
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Entre um casal, nem tudo são maravilhas e as diferenças devem ser expressadas, mas com respeito, nunca no meio de uma discussão. Na hora da briga, emerge nosso lado mais primitivo e acabamos dizendo o que não devemos, ou pelo menos de um jeito que não devemos. Faz melhor quem espera a poeira baixar para falar amorosamente com seu amor sobre o que está incomodando na união.
 
No calor da discussão, a pretexto de dizer “poucas e boas”, veredictos são emitidos, julgamentos são feitos, sentenças são atribuídas. Que hora mais infeliz para se dizer qualquer coisa: o emissor da mensagem não consegue se fazer ouvir e, consequentemente, respeitar, e o receptor perde a chance de ser nutrido com algo que, se dito em momento mais oportuno, poderia ser precioso. Nesse embate, só há perdedores.
Bate-bocas ativam nas pessoas o que nelas há de mais irracional, trazendo para o primeiro plano a impulsividade, a impetuosidade, a falta de filtro. Quem não viveu ou testemunhou situação desse tipo? Os interlocutores dizem coisas acreditando que o “sujeito” de suas falas seja sua personalidade consciente. Engano. Em situações passionais, a consciência é engolida pelo inconsciente, isto é, pelo elemento primitivo, associado ao plano dos instintos, que, em condições normais de temperatura e pressão, mantémse silencioso, embora não morto. As pessoas imaginam ter domínio sobre a situação, mas são meros ventríloquos de parcelas poderosas de seu inconsciente. Uma vez desencadeado, é praticamente impossível brecar o fluxo desenfreado das emoções. Os atacantes proferem “verdades”, no estilo “E digo mesmo! E você isto e aquilo e aquilo outro. E tem mais isto! E fique sabendo que você…, porque você nunca… e você sempre… E sua mãe, então…”, desenrolando um carretel de impropérios e desqualificações de toda ordem.
Se o interlocutor morde a isca e embarca na mesma viagem (na mesma “maionese”, talvez se possa dizer), é o que basta para que, em lugar de um diálogo, se instale um embate titânico entre forças jurássicas. O elemento humano, em situações como essa, já escorreu pelo ralo. Quanto desperdício de energia psíquica!
A incidência de episódios assim, passionais, na vida de um casal costuma indicar que poeiras foram varridas para debaixo do tapete; quinquilharias foram ocultadas no porão; mágoas foram negadas; dores, sonegadas; amores, não amados como deveriam ser. É só mexer no vespeiro para que todo esse entulho apareça, em geral com consequências desastrosas.
Quem ama não sonega. Nem do outro, nem de sua própria consciência. Dores e desagrados são elementos integrantes da experiência amorosa. No entanto, incluí-los e comunicá-los apenas no momento do desespero e da ira é a mesma coisa que entregar um bebê aos cuidados de uma hiena. O bebê pode se desenvolver, mas de modo catastrófico.
Críticas, queixas, assinalamentos, protestos, tudo isso requer tratamento requintado. São joias. Precisam ser reveladas em caixinhas de veludo. São expressões da faceta difícil, mas legítima, do amor. Não antagonizam com o amor. Servem para torná-lo mais forte, mais maduro. Por isso mesmo, para serem reveladas, requerem a mais amorosa das atitudes. Isso não significa que devam ser dissimuladas ou distorcidas. Devem — isto sim — ser veiculadas com clareza, com comedimento e sem presunção (sem que a elas se imprima o caráter de “verdades”) e com profundo respeito pelo outro. Se são coisas amorosas — e, em princípio, são —, devem ser entregues como presentes. O outro se sentirá visto com olhos límpidos e profundamente considerado, o que nele promoverá acolhimento e gratidão.
 
Autor : Alberto Lima – Psicoterapeuta de orientação Junguiana, é professor-doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique .
REVISTA CARAS | 18 DE ABRIL DE 2013 (EDIÇÃO 1015 – ANO 19).
 
 
 

 

Sorriso, tratamento de beleza

 

Gesto ativa o córtex orbitofrontal do observador, região do cérebro que percebe uma pessoa como atraente

Suzana Herculano-Houzel
Gonçalo Viana
 

Um sorriso genuíno no rosto dos outros é um sinal inconfundível de bem-estar e felicidade. Isto porque felicidade e sorriso começam no cérebro, no mesmo lugar. Faça algo bem feito, receba um agrado ou um carinho ou ache graça em uma piada, e seu sistema de recompensa se encarrega de fazer com que as regiões cerebrais que organizam movimentos automáticos – aqueles que fazemos sem precisar pensar – estampem um belo sorriso em seu rosto. Essas regiões tratam de elevar os cantos da boca, relaxar as sobrancelhas e, o mais importante, apertar levemente as pálpebras, contraindo os músculos orbiculares dos olhos. São esses que colocam aquelas ruguinhas nos cantos dos olhos, o sinal mais evidente de felicidade e do sorriso genuíno.

Ao mesmo tempo que o sistema de recompensa lhe dá o prazer do sorriso e essas regiões motoras fazem seus músculos estamparem esse prazer no seu rosto, é acionado também o córtex orbitofrontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo, a causa do sorriso. É assim que passamos a associar evento e resultado, acontecimento e sorriso. Como resultado, ver a causa do sorriso de novo (uma pessoa em particular, um lugar ou paisagem, por exemplo) torna ainda mais fácil sorrir mais uma vez. Apenas lembrar-se do que causou o sorriso também já funciona.

O incrível é que estampar um sorriso no rosto pode ser o suficiente para que comecemos a nos sentir bem. O truque funciona mesmo se você instruir um ator a montar um sorriso, músculo a músculo. Quanto mais os atores aprendem a dominar o músculo orbicular dos olhos, aquele que circunda as pálpebras e dá as ruguinhas, adotando uma expressão de felicidade genuína, mais seu corpo começa a se preparar para a felicidade, proporcionando-lhes um bem-estar que eles não sabem explicar. A neurociência explica: um trabalho recente mostrou que o sorriso genuíno já basta para ativar o córtex da ínsula, região do cérebro que nos dá sensações subjetivas como a do bem-estar. 

Mas não para aqui. Um sorriso genuíno é contagiante, e espalha a felicidade ao nosso redor. Através de neurônios-espelho, que nos fazem repetir automaticamente ações ao nosso redor, ver um sorriso no rosto de quem fala com você aciona as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo seu próprio sorriso, inclusive a ínsula e o OFC. Como seu cérebro imita o alheio sem fazer esforço, ver alguém sorrindo basta para você começar a se sentir assim por dentro também – o que acaba se refletindo por fora. 

Já o sorriso forçado, aquele que damos tantas vezes para a câmera, não funciona nem convence. Ele parte de regiões do cérebro que comandam movimentos voluntários, e não causa ativação do OFC. Portanto, não diz ao resto do cérebro que algo de particularmente bom aconteceu. Ou seja: você pode até sorrir por fora, mas seu cérebro sabe que você não está sorrindo por dentro.

Felicidade gera felicidade: ela passa de um cérebro para o próximo através do sorriso. Por isso o bem-estar do outro é contagiante; por isso nos sentimos melhor perto de pessoas sorridentes. E, como se não bastasse, ainda ficamos mais bonitos ao sorrir: o OFC, que é acionado automaticamente quando vemos uma pessoa bonita, fica ainda mais ativo quando essa pessoa sorri. O sorriso é, portanto, o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que a natureza – e a neurociência – já inventou…

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Sorria, as pessoas vão se lembrar de você!

 

Reparos secretos durante o sono

Dormir “afrouxa” conexões neurais e restitui ao sistema cerebral um estado mais saudável

 
John Hersey
 

Vivemos numa sociedade que a todo o momento nos convida à vigília. Obrigações, demandas de trabalho e opções de diversão não faltam. São tantas as possibilidades de distração que muitas vezes dormir parece um desperdício – é como se, em comparação com a urgência imposta pela vigília, o sono fosse enfadonhoe improdutivo. De fato, o cérebro adormecido não prepara projetos para apresentar na reunião na empresa nem responde à lista atrasada de e-mails. Exceto durante os sonhos, nesse estado ninguém tampouco ama, planeja as próximas ferias ou realiza muita coisa que cause admiração. No entanto, é justamente durante as horas tranquilas, enquanto a mente está em repouso, que o cérebro faz o trabalho essencial para todos os atos criativos: edita a si mesmo. Guarda o que pode ser útil e também joga muita coisa fora. 

Em sua nova teoria sobre a finalidade do sono, o neurocientista Giulio Tononi, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison, propõe que dormir para registrar o que aprendemos também pode estimular o enfraquecimento de conexões cerebrais. Seus estudos sugerem que, conforme a mente consciente se acomoda no sono, as ligações neurais que criam sustentação para o conhecimento parcialmente “se soltam”. Embora esse desmantelamento noturno possa parecer, à primeira vista, um ato de autossabotagem cerebral, o neurocientista acredita que, na verdade, trata-se de um mecanismo que melhora a capacidade do cérebro de codificar e armazenar novas informações.

Os benefícios do sono para o aprendizado e a memória são amplamente aceitos na comunidade científica. Segundo a visão predominante, as lembranças recém-formadas são repetidas durante o sono e, durante esse processo, são registradas de forma mais intensa. No entanto, de acordo com Tononi, ao unir essas memórias, os circuitos neurais podem ser fortalecidos somente algumas vezes até chegar a sua força máxima. Ele e seus colegas reuniram evidências de que o sono também serve como um botão de reset que, de maneira uniforme, afrouxa conexões neurais para colocar o cérebro de volta em um estado flexível para que a aprendizagem possa ter lugar.

A teoria é controversa. Alguns pesquisadores do sono consideram o resultado ainda muito preliminar e apresentam a hipótese de que o sono seja um momento de consolidação e reforço da memória. Ainda assim, se Tononi estiver certo, dormir pode não ser apenas organizar memórias do passado recente – mas também garantir espaço para as memórias de experiências ainda não vividas. 

A aprendizagem ocorre quando uma experiência, como ouvir uma nova música ou andar por uma cidade desconhecida, por exemplo, impõe um padrão de atividade em grupos de neurônios. A experiência altera interconexões de células: ligações entre neurônios coativos se fortificam enquanto aquelas fora do movimento se enfraquecem. Assim, as células se tornam interligadas de maneira funcional. Esta trama dedica-se a preservar um fragmento específico da experiência: a memória. Mais tarde, durante períodos “desligados” – particularmente quando estamos dormindo – o padrão registrado pela experiência se repete, conduzindo a alterações celulares que estabilizam o processo.

Embora grande parte dos pesquisadores conceba o sono como essa recapitulação de aprendizagem durante o dia, Tononi enxerga um problema em potencial nessa hipótese: se as ligações entre neurônios, as sinapses, fossem reajustadas e fortificadas ao longo de dias e noites consecutivas, as células neurais se tornariam “saturadas”. Assim como acontece com os pixels de uma imagem muito brilhante, um conjunto de sinapses uniformes potencializadas forneceria pouca informação. Da mesma forma, um cérebro nessas condições não teria como armazenar novas experiências.

Tononi também observou algumas propriedades interessantes das ondas cerebrais que ele e outros pesquisadores haviam registrado em pessoas dormindo. Cientistas há muito tempo sabem que as “ondas lentas” do sono – fase de descanso profundo em que fica mais difícil despertar – são necessárias e restauradoras. Mesmo assim, dois fenômenos específicos ainda chamavam a atenção de Tononi. Primeiro, ele identificou que pessoas privadas do sono de ondas lentas tendem a compensar o período com turnos mais longos e intensos desse tipo de sono mais tarde.

Além disso, o neurocientista notou que a intensidade do sono profundo – medida como amplitude em gravações de ondas cerebrais – cessa conforme a noite avança. Ambas as observações lhe forneceram exemplos de homeostase (a alternância de forças opostas para manter o equilíbrio do sistema biológico). O sono de ondas lentas parece “puxar” o cérebro de volta a algum tipo de equilíbrio que a vigília havia perturbado.

Tononi procurou desvendar o processo biológico que embasa as mudanças no sono de ondas lentas. Ele sabia que sua intensidade estava relacionada com a força total das sinapses. Quando os neurônios disparam em conjunto, conduzem grupos de conexões neurais à ativação em sincronia. A corrente elétrica que flui através das células neurais cria o sinal de ondas lentas (gravado com eletrodos implantados no couro cabeludo). Tononi acredita que estar acordado pode levar a uma proliferação ou ao reforço de sinapses e que a intensidade inicial elevada do sono de ondas lentas reflete essas redes celulares fortificadas. Se de alguma forma as sinapses se rompem durante este período de sono, este enfraquecimento poderia explicar por que os sinais do sono diminuem ao longo da noite.

Para embasar sua hipótese – apelidada por ele de “homeostase sináptica” – Tononi observou diretamente como as conexões se alteram entre o sono e a vigília. Em um estudo publicado em 2008, o neurocientista e seus colaboradores colheram tecido cerebral de alguns ratos em vigília e de outros animais enquanto dormiam. Para cada amostra de tecido, os pesquisadores usaram anticorpos radioativos para, de maneira seletiva, marcar várias proteínas que existem apenas nas sinapses. Curiosamente, eles encontraram quantidade significativamente maior de proteínas nos ratos acordados do que nos animais em repouso. Conclusão: existem menos sinapses no cérebro adormecido, ou seja, nessa condição as conexões têm menos recursos para comunicação eficaz – isto é, são mais fracas.

A hipótese ganha força com outro estudo publicado em 2010 pelo cientista Xiao-Bing Gao e seus colegas da Universidade Yale. Em colaboração com Tononi, a equipe de Gao gravou a atividade elétrica de neurônios individuais em fatias de tecido cerebral de roedores cochilando e em alerta. Constantemente, os neurônios se comunicam entre si por meio de pequenas correntes elétricas transportadas por meio das sinapses. Quanto mais intensa for a corrente que flui através delas, mais fortes serão as conexões. Os neurônios de roedores previamente acordados demonstraram descarga elétrica mais rápida e vigorosa do que a de animais em repouso, indicando que enquanto o cérebro dorme, os neurônios têm conexões sinápticas mais tênues. Os resultados sugerem que o cérebro alterna estados de ligações entre células neurais fracas e fortes durante o ciclo dia-noite.

MOSCAS SONOLENTAS
Se enquanto nos entregamos aos baços de Morfeu as sinapses são remodeladas, os pesquisadores devem ser capazes de ver os sinais estruturais dessas mudanças. As conexões através das quais os neurônios se comunicam podem variar em número e tamanho. Em geral, quanto maior a quantidade e o tamanho das sinapses, mais “informações elétricas” podem viajar entre dois neurônios conectados.

Os cientistas podem visualizar sinapses deixando marcas fluorescentes nas proteínas que trabalham em ambos os lados da fenda sináptica. Em 2011, Tononi e os neurocientistas de Wisconsin, Daniel Bushey e Chiara Cirelli, relataram o uso dessas técnicas para controlar o tamanho e o número de sinapses em moscas-das-frutas. Eles forçaram algumas moscas a ficarem acordadas, colocando-as em uma caixa giratória – na parte superior da rotação, os insetos sonolentos cairiam e acordariam – para verificar se protelar o sono impediria o encolhimento e a retração de sinapses. Surpreendentemente, de acordo com a hipótese de Tononi, os pesquisadores observaram maior densidade e tamanho de sinapses – em alguns casos, duas vezes maiores – no cérebro das moscas que haviam sido forçadas a permanecer acordadas em comparação com as moscas em repouso.

Em um estudo ainda mais recente, Tononi e sua equipe estenderam esses resultados a ratos. Ao rotular neurônios do córtex do cérebro desses mamíferos com indicadores fluorescentes, os pesquisadores observaram o crescimento e a retração de espinhas sinápticas – minúsculas protuberâncias arredondadas nos neurônios onde ocorrem as sinapses. Eles verificaram que a densidade total de conexões aumentou com a vigília, manteve-se elevada enquanto os animais estavam privados de sono e diminuiu somente após dormirem.

TÔNICO PARA ADORMECER
Antes que a homeostase sináptica possa ser considerada o principal motivo para dormir, os pesquisadores precisam encontrar maiores evidências de que algum aspecto ensurável da função neural – aprendizagem, memória ou percepção, por exemplo – é melhorado pela diminuição de sinapses e comprometido quando essas atividades são de alguma forma restringidas. Porém, há consenso de que não será fácil demonstrar essas provas.

Intuitivamente, sabemos que dormir é restaurador; muitas metáforas tentaram capturar esta ideia. O sono é um tônico, um bálsamo. A sabedoria popular afirma: “Nada como uma boa noite de sono entre um dia e outro”. “Dorme que passa…” Ou, como disse Shakespeare, dormir “entrelaça com cuidado os fios separados e cortados”. Ele não podia saber que o sono nos renova desfazendo no cérebro as malhas entrelaçadas durante o dia para que possamos viver e aprender novamente. Mas, de alguma forma, intuía.

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Trauma de infância e o relacionamento a 2!

Trauma de infância pode prejudicar relacionamento romântico de adulto

 

Pesquisas emergentes sugerem uma infância difícil pode afetar severamente os relacionamentos românticos nos anos posteriores.
 
Em dois estudos separados, os pesquisadores examinaram a estabilidade e a satisfação das relações íntimas entre os estudantes universitários com uma história de maus tratos na infância.

Os estudos, publicados no Journal of Social & Clinical Psychology, sugerem que o abuso emocional realizado em crianças afeta a autocrítica quando adulto.

 

Os pesquisadores descobriram que os participantes tiveram uma tendência muito forte de se auto-criticar, e isso interferiu em sua satisfação com o relacionamento.

Os estudos também revelaram que alguns participantes tinham sintomas de estresse pós-traumático devido ao abuso emocional que sofreu. Os pesquisadores sugerem que isso poderia ser o resultado de internalizar comportamentos causados ​​por maus-tratos ou por incapacidade de uma criança para compreender adequadamente as suas circunstâncias.

 

Maus tratos na infância inclui abuso físico e sexual, maus-tratos e negligência emocional. Maus tratos na infância é um contribuinte significativo para o aumento dramático no encaminhamento para centros de aconselhamento da universidade, os pesquisadores acreditam.

 

Os investigadores acreditam que maus tratos na infância também gera autocrítica causando um efeito destrutivo sobre relacionamentos amorosos.
 

“Com o tempo, essa tendência pode ser consolidada, tornando-se uma parte que define a personalidade de uma pessoa, e, finalmente, fazer descarrilar as relações em relações gerais além da relação romântica, em particular”, disse Dana Lassri, cuja dissertação de doutorado, supervisionado pelo psicólogo Dr. Golan Shahar, serviu como a base para o estudo.

 

Lassri acredita que mesmo que essas conclusões foram obtidas de indivíduos em idade universitária, os comportamentos potencialmente poderiam piorar durante a vida adulta.

Fonte: Psych Central

Vinho x Gravidez

Um copo de vinho por dia não faz mal ao cérebro do bebê

Mães abstêmias ou que beberam com moderação geraram filhos com capacidade mental similar

 
Lucky Business/Shutterstock
 

Beber com moderação não prejudica o desenvolvimento cognitivo do feto, concluiu um estudo com mais 1.600 crianças dinarmarquesas de 5 anos. O pesquisador Ulrich Kesmodel, da Universidade Aarhus, na Dinamarca, aplicou vários tipos de teste cognitivo aos pequenos e constatou que aqueles cuja mãe consumiu até oito copos da bebida por semana ao longo da gravidez tiveram desempenho semelhante ao dos filhos de mulheres que se abstiveram de álcool. 

Kesmodel e sua equipe também descobriram que mães que beberam mais de cinco doses de uma vez nas primeiras semanas da gestação, antes de saber que esperavam um bebê, não têm motivo para se preocupar: isso parece não afetar as habilidades mentais até os 5 anos. Ele confirma, porém, que o consumo abusivo de álcool afeta gravemente o desenvolvimento cognitivo da criança. “Pode prejudicar a capacidade de resolver problemas, planejamento, raciocínio e concentração. Nosso próximo passo será avaliar o efeito do consumo regular e moderado de álcool sobre cada uma dessas habilidades específicas”, diz o autor do estudo, publicado no BJOG: An International Journal of Obstetrics and Gynaecology.

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