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Arquivo para fevereiro, 2013

Nota

Cegos de ciúmes

Comportamentos compulsivos, como verificar registro de ligações no celular, são sustentados pela ilusão de que é possível controlar o que o parceiro faz ou sente

Fernanda Ribeiro
Gladskikh Tatiana /Shutterstock

Há mais de 400 anos, William Shakespeare tratou da “doença da suspeita” em uma de suas obras mais populares: Otelo, o mouro de Veneza. A desconfiança de que a mulher mantinha relacionamento com um rapaz mais jovem – despertada e alimentada por insinuações de um subordinado, Iago – levou-o a buscar e a acreditar ter encontrado provas da traição em fatos triviais. O escritor referia-se ao ciúme como “o monstro de olhos verdes”, uma metáfora sobre a cegueira induzida pelo sentimento que faz entrever como provável ou certo o que apenas é possível de acontecer.

No relacionamento amoroso, no entanto, é natural sentir ansiedade ao perceber que algo ou alguém pode reduzir o espaço afetivo que ocupamos na vida do parceiro. “O ciúme normal é transitório e se baseia em ameaças e fatos reais. Ele não limita as atividades – nem interfere nelas – de quem sente ou é alvo de ciúme e tende a desaparecer diante das evidências”, define a psicóloga Andrea Lorena, pesquisadora de ciúme excessivo do Laboratório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). O ciúme extrapola as fronteiras do saudável quando se torna uma preocupação constante e geralmente infundada, associada a comportamentos inaceitáveis ou extravagantes, motivados pela ansiedade de tirar a limpo a infidelidade do parceiro. “No ciúme excessivo, o medo de perder a pessoa amada vem acompanhado de emoções específicas – raiva, medo, tristeza, ansiedade – e pensamentos irracionais. ‘Será que ele/ela está me traindo?’ é um pensamento frequente. Quase sempre há prejuízos para quem sente, para quem é alvo e para o relacionamento”, diz Andrea.

Não raro os pensamentos irracionais se traduzem em comportamentos compulsivos, sustentados pela ilusão de que é possível controlar o que o parceiro faz ou sente, como verificar agendas, registro de ligações no celular, seguir o parceiro, conseguir senha de acesso ao e-mail, checar faturas de cartão de crédito e fazer visitas-surpresa para confirmar suspeitas. Muitas vezes as preocupações são acompanhadas por sintomas físicos, como sudorese, taquicardia, alterações no apetite e insônia. De acordo com Andrea, uma das características mais comuns da pessoa excessivamente ciumenta é a baixa autoestima. “Isto é, ela não acredita que tem valor e merece respeito. A priori, é alguém ‘traível’ e abandonável, pois na verdade acredita que a honestidade e a reciprocidade nas relações não valem a pena. É um sentimento com origem na infância e na relação com os pais, em que provavelmente a pessoa foi negligenciada e desrespeitada. Somam-se ainda fatores como insegurança, medo, instabilidade e a própria desorganização pessoal”, diz a psicóloga.

No Brasil, o PRO-AMITI e a Santa Casa do Rio de Janeiro oferecem tratamento gratuito para ciúme excessivo. A abordagem combina atendimento psicológico, em grupo ou individual, e psiquiátrico. É comum a comorbidade com transtornos de depressão e ansiedade que, se diagnosticados, são tratados com medicamentos. “O processo psicoterápico trabalha a melhora da autoestima e a segurança com o próprio relacionamento. Com o tempo, o paciente percebe que comportamentos como investigar o que o parceiro faz na rede ou vasculhar seus pertences são desnecessários”, diz Andrea.

O ciúme excessivo é um traço frequente de outro quadro: o amor patológico (AP), com características semelhantes à dependência química. Ele ocorre quando o comportamento saudável de atenção e cuidado para com o parceiro, característico do amor, começa a ocorrer de maneira repetitiva e frequente. A pessoa se ocupa do outro mais do que gostaria e abandona interesses e atividades que antes valorizava. Segundo a psicóloga Eglacy Sophia, também do PRO-AMITI, ciúme excessivo e amor patológico compreendem medo intenso da perda, baixa autoestima e insegurança emocional. “Muitas vezes os questionamentos sobre a fidelidade do parceiro são calcados em motivos plausíveis. Em geral, uma entrevista cuidadosa com o paciente revela dados sobre o comportamento do parceiro que poderiam causar ciúme em qualquer pessoa, como telefonemas secretos, distanciamento afetivo e físico frequente e confirmação de traições passadas”, diz a psicóloga.

Apesar de existirem poucos estudos relacionando o ciúme patológico com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), os pensamentos do ciumento costumam ser similares aos das pessoas que têm o distúrbio: são intrusivos, desagradáveis e incitam atitudes de verificação. “Pacientes que reconhecem seus comportamentos como inadequados ou injustificados apresentam mais sentimentos de culpa e depressão; os demais demonstram raiva e condutas impulsivas mais pronunciadas”, diz Eglacy.

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Desde a infância

Brilho das telas de computador influi na qualidade do sono

Uso frequente dos aparelhos pode alterar produção de hormônios e desregular o sistema circadiano

Dewayne Flowers/Shutterstock

Usar o Ipad por duas horas com a tela com o grau máximo de luminosidade é suficiente para reduzir a produção normal de melatonina durante o sono, essencial para a regulação do sistema circadiano, o relógio interno – esse hormônio alerta o corpo de que é noite e de que é necessário dormir.

De acordo com estudo do Instituto Politécnico Rensselaer, em Nova York, o uso de telas brilhantes está relacionado ao atraso gradual no horário de ir para a cama. A autora, Mariana Figueiro, sugere que o uso crônico de eletrônicos luminosos pode desregular o sistema circadiano. Ela e sua equipe desenvolveram óculos de proteção contra a luminosidade e observaram os efeitos em voluntários. “A produção de melatonina deles aumentou, então comprovamos que a luz artificial dos monitores tem efeito sobre a produção do hormônio”, diz Mariana, que acredita que, futuramente, os designers e fabricantes de computadores lançarão versões mais “circadianamente amigáveis”. Até lá, ela recomenda substituir o tablet pela leitura do bom e velho livro antes de cair no sono.

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Nota

Desabafar é Bom!

O alívio de falar de si mesmo está relacionado a ativação de estruturas cerebrais de recompensa

Suzana Herculano-Houzel
Gonçalo Viana

Ah, como é bom ter para quem contar as coisas. Outro dia cheguei em casa com fumacinhas saindo da cabeça, tamanha minha irritação com questões variadas no trabalho, que vim remoendo no caminho. Se meu marido não estivesse em casa, eu teria continuado insistindo mentalmente no assunto por um bom tempo, e só me irritando mais.

Mas não: ele estava aqui, e me ofereceu seus ouvidos e comiseração. Era tudo de que eu precisava: uma oportunidade para meu cérebro finalmente executar o longo programa motor que ele vinha montando havia horas, desfiando e revisando minhas misérias do dia, e botar tudo para fora, em palavras, para então poder sossegar.

Por isso segurar um segredo dá tanto trabalho – e por isso contar é tão bom. Preocupações, assim como segredos, são representações mentais angustiantes, aflitivas, que levam à ativação de uma estrutura do cérebro especializada em antecipar problemas, o córtex cingulado anterior. Ativado, ele, por sua vez, dispara uma série de alarmes, parte da resposta ao estresse da preocupação, que deixam tanto corpo como cérebro tensos. Além disso, já que o cérebro sabe colocar seus pensamentos em palavras, ficamos remoendo a preocupação ou o segredo, ensaiando mentalmente sua versão motora, produzida pela boca. Mas, sem ter com quem desabafar, ou para quem contar, esse programa motor fica só na vontade, e não sai. E assim tem-se um cérebro cada vez mais aflito, que tem de fazer força cognitiva, atenta, para segurar ativamente suas palavras.

Por isso colocar tudo para fora é tão bom: assim o programa motor tão ensaiado é executado e não precisa mais ser segurado pelo seu córtex pré-frontal; assim o cingulado anterior pode soltar um “Ufa!” e desligar os alarmes que ajudavam o resto do cérebro a manter o controle.

Essa é uma das razões pelas quais a psicoterapia pode ser tão boa: o simples desabafo. Claro, amigos, parentes, padres, e às vezes até a pobre da pessoa sentada ao seu lado esperando o ônibus também servem quando tudo o que se precisa é uma oportunidade para despejar as preocupações em palavras.

Falar da gente mesmo é muito bom. Um estudo recente da Universidade Harvard mostrou que, tendo opção entre responder perguntas sobre os gostos e hábitos dos outros, sobre simples fatos, ou sobre si mesmos, os participantes preferiam falar do próprio umbigo – e até pagavam para escolher esta alternativa, e de dentro de um aparelho de ressonância magnética, onde só os pesquisadores viam suas respostas. A preferência por falar de si mesmo está relacionada a uma maior ativação das estruturas do sistema de recompensa, o que gera prazer.

Funciona mesmo quando segredo completo é garantido. Mas, seres sociais que somos, a ativação do sistema de recompensa é especialmente alta quando os voluntários sabem que suas respostas serão ouvidas pelo acompanhante que eles levaram para o estudo. Falar de si é bom, mas falar de si para os outros é melhor ainda.

Não é à toa, portanto, que a liberdade de expressão pessoal e de opinião é altamente valorizada. Não se trata apenas de um construto social ou cultural: o prazer de expressar seus próprios pensamentos e estado de espírito é real, mensurável, e vem lá dos cafundós do cérebro. E quando os próprios pensamentos são aflitivos, o desabafo ainda é um alívio só.

Uma ressalva, contudo: pelas mesmas razões, ficar revisitando e remoendo um mesmo problema meses a fio, ao longo de sessões e mais sessões de terapia, muitas vezes é um tiro no pé. É preciso saber deixar o problema ir embora. (05/02/2013).

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A importância da Vitamina D

CARÊNCIA EM VITAMINA D PODE LEVAR A

OSTEOPOROSE, CÂNCER E OBESIDADE

Esta vitamina é produzida na pele ao se tomar sol e ingerida ao se consumir gordura de peixe, óleo de fígado de bacalhau e alimentos fortificados. Idosos, pessoas de pele escura, obesos e quem toma remédios como anticonvulsivantes e os que contêm corticoide estão mais suscetíveis a apresentar deficiência da substância. Pessoas nessas condições devem ficar atentas e consultar um médico.

As vitaminas são substâncias essenciais, em pequenas quantidades, para o funcionamento adequado do organismo humano. O nome vitamina foi criado pelo bioquímico norteamericano de origem polonesa Casimir Funk (1884-1967), em 1912, com a junção da palavra latina vita, vida, e do sufixo amina. Elas têm uma letra no nome e se dividem em dois grupos: as solúveis em gordura, ou lipossolúveis, como A, D, E e K, e as solúveis em água, ou hidrossolúveis, como a C e as do complexo B (B1, B2, B3, B5, B6, B8, B9 e B12).

Todas as vitaminas são ingeridas com os alimentos, por isso mesmo é fundamental variá-los sempre. Não se deve, claro, consumir diariamente só uns poucos deles, pelo fato de ser grande a possibilidade de se apresentar carência em vitaminas e de se ficar sob o risco de desenvolver doenças.

Alimentos ricos em vitamina D são as gorduras de peixe, o óleo de fígado de bacalhau e alimentos fortificados. É a única, vale destacar, que é produzida na pele quando as pessoas se expõem aos raios solares. Quanto mais escura a pele, contudo, menor a produção de vitamina D. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as pessoas de 19 a 70 anos devem ingerir todo dia 600 unidades internacionais (UI) de vitamina D. A partir dos 70 anos, o ideal é ingerirem diariamente 800 UI. Por essa razão, é sempre importante ter em conta a maior ou menor exposição aos raios solares e complementar as necessidades por meio de uma alimentação apropriada.

A vitamina D, hoje se sabe, é fundamental para a absorção do cálcio pelos intestinos e sua deposição nos ossos, tanto para formá-los bem durante a infância quanto para que permaneçam fortes e saudáveis a vida inteira. Também se descobriu nas últimas décadas que está associada ao risco de desenvolvimento do câncer, obesidade, diabetes mellitus, fraqueza muscular, esquizofrenia, depressão, doenças cardiovasculares e infecciosas, como os resfriados. Crianças com deficiência em vitamina D podem desenvolver raquitismo, doença felizmente menos comum hoje no Brasil, e os idosos ficam mais suscetíveis a apresentar osteoporose, com maior risco de quedas e fraturas graves de ossos, com dificuldade para a calcificação. Os grupos que apresentam maior risco de deficiência em vitamina D são os idosos com mais de 65 anos, pessoas internadas em instituições como asilos e as de pele escura, obesos e quem toma certos medicamentos, como os anticonvulsivantes e os que contêm corticoide, ou se expõem pouco aos raios solares. Na maioria das vezes, a deficiência em vitamina D não provoca sintomas.

O ideal, quando se fala em saúde, é prevenir-se, ou seja, evitar problemas. Você pode fazer isso, no caso da vitamina D, com algumas medidas básicas. Procure habituar-se a consumir alimentos ricos na substância. Exponha-se ao sol pelo menos duas vezes na semana, antes das 10h00 ou depois das 16h00, com braços, pernas e tronco desnudos e sem protetor solar.

A avaliação dos níveis de vitamina D é realizada com um exame de sangue chamado 25-OH Vitamina D. Pessoas que apresentam maior risco de desenvolver o problema devem consultar periodicamente um clínico geral ou um endocrinologista para fazer a avaliação e, se necessário, a suplementação. Esses profissionais estão disponíveis até no serviço público de saúde em todo o Brasil.

DR : #Clareza #Generosidade #Equilíbrio e #Serenidade

CONVERSA DE CASAL DEVE SER CLARA, GENEROSA, EQUILIBRADA E SERENA

Só assim é possível fazer uma discussão da relação, ou DR, que realmente ajude o casal a detectar seus problemas e dar soluções para eles. Se uma dessas qualidades fica de fora, há sério risco de os parceiros se perderem em queixas diversas, se desrespeitarem, mesmo sem querer, e acabarem pondo o relacionamento a perder, ainda que ele tenha chances de se reorganizar.

Já defendi neste espaço que um casal pode transformar as cansativas discussões da relação, ou DRs, em experiências gratificantes, mas para isso é preciso que a comunicação entre os envolvidos tenha cinco qualidades: precisão, clareza, generosidade, equilíbrio e serenidade. Toco de novo no assunto porque essas qualidades são tão importantes que merecem detalhamento.

Quando se pretende abordar com o parceiro qualquer assunto sério, convém, em primeiro lugar, exprimir objetivamente o que se deseja comunicar, ter rigor no foco. Isso é precisão. Para consegui-la, precisamos, antes, refletir. É através da reflexão que se obtém nitidez de pensamento. Ao sermos precisos, corremos menos riscos de nos perder na conversa, permitindo que outros assuntos se sobreponham ao principal.

Não é incomum que isso aconteça, pois no calor da discussão uma avalanche de problemas é lembrada e tudo parece ser importante. O casal inicia falando da negligência afetiva dele e logo está discutindo os decotes dela, o ronco dele, os problemas do filho na escola e até o mau humor da empregada. Nessas condições é quase impossível esclarecer e encaminhar a solução de qualquer problema. Antes de uma DR, portanto, devemos pensar bem e definir o assunto que pretendemos abordar. Se houver mais de um, convém estabelecer uma escala de prioridades — e tentar não mudar de tema enquanto o primeiro estiver em discussão.

Por serem complementares, precisão e clareza costumam ser confundidas, mas são diferentes. Claro é aquele que não deixa dúvidas. “Você deveria usar roupas mais folgadas”, disse o marido à esposa, evitando dizer que a achava gorda. Ela abriu a brecha para o marido ser claro quando respondeu: “Você está dizendo que estou gorda?” Mas ele se acovardou: “Não! É que eu acho que você poderia mudar seu estilo de vestir”.

As pessoas evitam ser claras em assuntos constrangedores. Falam pela metade. Com isso, acabam gerando dúvidas. O outro fica sem saber que atitude tomar diante do que parece ser, mas não está claro se é.

Ser preciso e claro é fundamental, mas não suficiente. Há que se ter também generosidade. Ser generoso ao comunicar é entregar-se, expor-se, permitir que o outro saiba dos sentimentos e pensamentos que nutrimos e que se referem a ele.

Ser generoso é mais do que ser sincero, implica abrir mão do controle — controle que exercemos, por exemplo, quando mantemos o outro ao nosso lado porque não temos coragem de assumir que não o queremos mais. Ser generoso é, nesse caso, deixar o outro saber que o amor que sentíamos acabou. Na DR, é generoso quem dá liberdade a si a ao outro para validar ou não a escolha feita no passado.

São conversas delicadas, e devem ser conduzidas com equilíbrio, sem dramas ou exageros do tipo: “Pra você tudo o que eu faço está errado”; “Você nunca me ouve”; “Esta casa está sempre uma bagunça”. Muitas DRs terminam em briga porque quando um fala assim, no superlativo, o outro se sente desafiado e passa a fazer o mesmo, numa crescente disputa de agressividade.

Por fim, é indispensável haver serenidade. É ela que constrói o caminho para o consenso, contrabalanceando emoção e razão. Como é isenta de julgamentos, críticas, rótulos e acusações, desarma o outro, gera segurança e estimula os parceiros a construir o alinhamento que se espera de toda DR.

 REVISTA CARAS | 8 DE NOV. DE 2012 (EDIÇÃO 992 – ANO 19)

Amor, desejo e tolerância

Muitos dos que se queixam de solidão e da dificuldade de encontrar um amor pensam que a vida a dois é feita somente de alegrias e prazeres. Claro que não é. Só conseguem ficar juntos por muito tempo, sem perder a qualidade do relacionamento, casais que, além de se amar e se desejar, aprendem a superar, com compreensão e lealdade, os obstáculos inevitáveis da vida conjunta.

Quantas vezes nossa atenção não é despertada para o casal que permanece junto por muito tempo, transmitindo atmosfera de amor e diálogo, e um clima de solidez e estabilidade? Sai ano, entra ano, às vezes perdemos os eternos pombinhos de vista, mas eis que de repente ressurgem, amadurecidos, por vezes já grisalhos, e ainda juntos, com a mesma postura de união diante da vida. Não é só a longa duração do par que os distingue, mas a qualidade e a dignidade de sua experiência, resistindo a qualquer diagnóstico de tédio que os mais afoitos poderiam lhe aplicar. As seduções da pósmodernidade não os afeta.

A durabilidade da união, insisto, não é critério para medir seu êxito ou supremacia. Quantos casais não prolongam a convivência apenas por falta de opção, por injunções religiosas, econômicas ou familiares, ou simplesmente por seguir a máxima convencional de “ruim com ele (ou ela), pior sem…”, enfim! Não! Aquele casal que provoca em muita gente uma pontinha (ou até mais que uma pontinha) de inveja carrega o segredo de união não só prolongada, mas também amorosa — eu não diria estável, porque duvido que as relações escapem de alguma instabilidade. Ela lhes é inerente.

Ao contrário de uma idealização ingênua e romântica, essa união requer um “trabalho” — o que eu venho chamando de “o trabalho do casal”. Ele precisa “ralar” — e não apenas no sentido do rala-e-rola dos desejos sexuais. Estes poderiam não lhes render mais do que umas 9 e 1/2 Semanas de Amor, como no célebre filme de 1986, com Kim Basinger (59) e Mickey Rourke (50), espécie de Cinquenta Tons de Cinza, popularíssima obra soft erótica da britânica E. L. James (49), daquela época. Uma relação de 20 anos, por exemplo, tem mais de 1000 semanas, nas quais, para sobreviver, o amor não pode se limitar ao império dos sentidos, mas irá depender de uma interação muito mais abrangente, que envolve qualidades subjetivas, admiração pelo caráter e pelo temperamento do outro e tolerância, muita tolerância e compreensão. Numa relação assim, há um exercício constante de lealdade e fidelidade, foco na autoproteção frente a um mundo cheio de seduções a cada esquina, capacidade de suportar os sentimentos paradoxais de amor e desamor e, por fim, a profunda convicção, mesmo em eventuais momentos difíceis e dolorosos, de que, tal como a fênix, o desejo e o amor podem sempre renascer das cinzas, reacendendo a chama inicial, pois, se é verdadeiro, seus fundamentos nunca deixam de valer.

É verdade que a satisfação e a leveza precisam predominar, do contrário não fariam sentido as renúncias e as frustrações vividas pelo caminho. Sim, porque elas existem, embora nem todos os que se queixam de solidão e da dificuldade de encontrar um amor estejam dispostos a enfrentar esse outro lado da vida a dois, acreditando, ingenuamente, que esta não passa de um brinde mágico à alegria e ao prazer.

Isso não existe. Casais inteligentes permanecem unidos porque se enriquecem mutuamente, dia após dia, no sentido afetivo, existencial, conquistando a capacidade de viver uma vida estimulante. Casal inteligente é aquele que não se trava diante dos obstáculos, superando-os com criatividade e genuína afeição.